Arquivo da categoria: Dor

Se há males que vem pro bem
Que essas dores tratem de deixar forte
Coração mole tanto bate até que endura
Toc toc, ainda há tempo?
Silêncio, ouço pisadas mansas
É só o vento passando nas frestas
Fecha os olhos e adormece
Que tudo passa
E que nada é infinito
Ainda bem

Não canse o cego Amor de me guiar

olhos vendados .

Pois meus olhos não cansam de chorar
Tristezas não cansadas de cansar-me;
Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me
Pôde quem eu jamais pude abrandar;

Não canse o cego Amor de me guiar
Donde nunca de lá possa tornar-me;
Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
Enquanto a fraca voz me não deixar.

E se em montes, se em prados, e se em vales
Piedade mora alguma, algum amor
Em feras, plantas, aves, pedras, águas;

Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes mágoas podem curar mágoas.

Luís Vaz de Camões

Eu sou o Homem

Eu sou o Homem, de muitos nomes e rostos.
Já habitei tempos outros e hei de ficar disposto
Entre o céu e a terra, neste e em outros mundos.
Minha alma é velha, como um abismo profundo.

Nela habitam todos os homens, dor e plenitude.
E o presente tem, de um sorriso, a inquietude
Tal qual é sagrado, uma fração de divindade.
E tudo que trago justifica minha identidade.

Meus pesares, meus erros, minhas tormentas,
Que em momentos minha alma arrebenta
E faz-me querer por vezes deixar de ser.
Porém a Beleza em tudo há de ter.

Porque a dor é o que me move em busca dela.
Ela só é acalento porque em mim há mazelas.
Ela só é conforto porque em mim há pranto.
Faz surgir o Amor no, do meu peito, recanto.

E já não me sinto só; sinto-me parte de todo
O Universo e não preciso sequer de engodo.
Ainda que tenha uma lança em meu peito
Não tento tirá-la, pois não a rejeito.

Permite-me provar a profundidade de ser.
E, para dessa Graça nunca me abster,
Eu próprio enfiaria uma nova lança,
Não por medo ou destemperança.

Pois sou assim, Glória encarnada.
Não sirvo a mim e busco, para mim, nada.
Sou um humilde servidor da humanidade.
Vim recordá-la de que a Beleza, em realidade,

Pode ser expressa para surgir dentro de si.
Que seus olhos mirem o infinito do sentir
Que há tanto no céu quanto em suas almas.
E por isso minha mão se espalma

Pois sou o Guardião, do que faz a união
Entre o que de invisível alcança a visão.
E disso não me gabo, nem me desmereço,
Não o faço pelo meu apreço.

Sou o que sou e o que hei de ser eternamente
É o que justifica minha existência, meu presente,
Meu respirar, o pulsar do meu coração,
Cada passo que dou, cada letra que escrevo então.

Sonhos? Disso tive a alma absolvida.
Meu sonho é o grande sonho da Vida.
E, para realizá-lo, sou dele cativo.
Sigo assim, obedeço ao meu destino: Vivo.

Endymion

esperancaO que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.

John Keats (poeta inglês – 1795-I82l)

Endymion (trecho)

Ninguém me Venha Dar Vida

tumblr_luzl3flOK81qhk7sdo1_500Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1947)’

O rio que trafego…

rio
Oh minha doce amada,
Leve-me já deste mundo!
Que esta vida armagurada
É como um poço sem fundo.

Podem pisotear meu coração
Mas nunca hão de extirpar
O Amor que ponho em sua mão.
O mal não o pode alcançar.

E se choro, não lamento.
E se dói, não me entrego.
E se traem, não arrebento.

Que o rio em que trafego
Nasce da mais nobre pureza
E desagua na sua Beleza.

Liberdade

Copyright © Carlos Eduardo

Se de mim a caneta tomarem
E minhas mãos amarrarem,
Cantarei aos ventos meus versos,
Ecoarão por todo o Universo.

Eu não escrevo por minha vontade,
Trago em minha a alma a necessidade
De revelar ao mundo o Amor
Que ela transmite pela minha dor.

E se minha língua for arrancada
Nem assim ficarei estancada:
Dançarei até o meu corpo desfalecer
E minha alma livre ser.

Não a prendem corrente nem prisão
Só o amor é minha escravidão.

Ser Poeta

Copyright © João Paulo Canário

Ser poeta é dissolver-se por completo
Em um lodo pegajoso
Para fazer dele o adubo
Dos jardins que habitam as Musas.

Quem vislumbra a flor
E sente seu doce perfume
Não suspeita que o seu solo
Teve de alimento o estrume.
E foi o decomposto que a alimentou,
Foram o pesar e a dor que a fizeram tão Bela.

Ser poeta não é romântico.
É sofrer para que alguns amem
E leiam seus versos para o amado
Que ele mesmo nunca terá.

Porque a Poesia exige que seu Amor seja apenas dela.
Esse é o segredo dos poetas que agora vos revelo.
Mas nem por isso a Poesia deixará de ser um mistério.

Quando este poema chegar ao fim,
Se tu não és poeta, pouco entenderá do que diz aqui.

Despedida

http://walterneyfotos.blogspot.com.br/

Copyright © Walter Ney

E chegou o momento de partir,
Preciso deixá-la ir.
Tu, que foi para mim uma guia,
Minha luz na noite sombria.

Exigiste-me por inteira.
Não haveria outra maneira
De fazer-me liberta
Do véu que o sol encoberta.

Mas agora preciso, sozinha,
Descobrir a alma minha
E não ser de ti vassala,

Não mais ser minha bengala.
Digo adeus ao condutor
Do trem da minha dor.

Violino

É, eu nasci para sofrer.
Não há mais dúvidas do meu destino.
É o mesmo do violino
Que suas cordas parecem romper

Quando seu choro ensandecido
Faz a Música delas surgir
E seu som é guarnecido
Pelo grito dele a bramir.

Quão triste é sua melodia.
Mas a razão é que, sem dor,
Muito mais triste ela seria,
Mas sem o teor arrebatador.

E só quem sofre me entende,
Pois quem vive e é feliz
Sua alma não se acende
Pelo que esta poesia agora diz.

Será que um dia meu lamento
Chegará aos ouvidos de quem
Faça dele um acalento
e não o veja com desdém?

Ou é apenas um consolo
Que eu busco para achar
Que não sou apenas um tolo,
De em algo acreditar.

Não, há a Justiça e a Verdade
E a Beleza, sua irmã,
Sua mãe é a Bondade
Que a todas unem feito um imã.