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Recital de Poesia

Neste sábado, participarei de um recital poético cujo tema é Visões Platônicas do Amor. Será no dia 24/11, às 14h, na Associação Cultural Nova Acrópole, na Rua General Carneiro, 881, próximo à praça do expedicioário.
Vai tocar fundo o seu coração =D

Este recital faz parte da semana de filosofia, cujo tema é Platão:

Cidade Alta


Existe um lugar
Onde a tristeza não habita,
Onde a solidão é amiga
E nem é preciso sonhar.

Lá a vida é só um instante
Sem começo e sem fim
E o tempo é estanque,
Ele mesmo mora ali.

É preciso procurar
O seu ponto de partida,
Onde fica o lugar,
Sua porta escondida.

Basta, para encontrá-la,
Buscar sua cidade alta.

Por que a beleza importa?

A Arte é a expressão da Beleza. Um artista é aquele, então, que não possui apenas a função de exprimir o Belo. É algo mais profundo, é o seu Destino. É um dever, mas não como o peso que esta palavra representa atualmente. É um dever como uma espécie de motor interno, que unindo à sua inclinação natural, o obriga a fazer o que deve fazer. Ele é tocado pela loucura divina. Uma obra interessante que trata desse assunto é Fedro de Platão:

“(…) os maiores benefícios nos são transmitidos através da loucura, quando são enviados como uma dádiva dos deuses. (…) E a propósito vale a pena registrar o fato de que homens do passado que conceberam nossa linguagem não pensavam que a loucura fosse criminosa ou ignominiosa; se assim fosse, não teriam associado a própria palavra mania (mania [loucura]) à mais nobre das artes, a que prediz o futuro, chamando-a de mânica.
(…)

Quanto àquele que é corretamente possuído pela loucura, é encontrado um alívio dos males do presente. Um terceiro tipo de posse provém das Musas, o qual se apodera de uma alma terna e inviolável, desperta-a para um frenesi dionisíaco de cantos e outras poesias que glorifica os feitos do passado, e através destes educa as novas gerações. Aquele, todavia, que, sem possuir a loucura, alcança as portas das Musas, na expectativa de ser um bom poeta adquirindo conhecimento da arte, frustra-se, a poesia do homem de senso sendo totalmente eclipsada pela do louco.
(…) A conclusão é que não devemos alimentar medo no que se refere a esse aspecto e que ninguém não nos perturbe nem assuste declarando que o amigo que está em perfeito juízo deve ser preferido ao que experimenta um frenesi.”

Essa obra atemporal trata do Amor. Mas que relação tem o Amor com a Arte? Citando, parte do discurso de Sócrates, em Fedro:

“Aquele, entretanto, que foi recentemente iniciado, alguém que contemplou muita de tais realidades, ao ver um rosto de semelhança divina ou uma forma corpórea que constitui uma boa imagem da beleza, principia por estremecer, algo como o velho pavor que sentia antes dele se apoderando; então, a medida que contempla, passa a reverenciar aquele que é belo como um deus, e se não recear ser julgado completamente louco, oferece sacrifícios ao favorito como se o fizesse a um ídolo ou a um deus. E enquanto o contempleta, uma reação ao seu [anterior] estremecimento dele se apossa, acompanhada de suor e calor incomum, pois a medida que o fluxo de beleza o penetra através de seus olhos, ele é aquecido (…)
Ora, a alma inteira durante esse processo pulsa e palpita.”

E o que é a Beleza e porque ela tem um papel tão importante em nossas vidas? Esta pergunta é magistralmente respondida pelo historiador Roger Scruton, no melhor documentário que já tive oportunidade de assistir: Why Beauty Matters?

Nele, Roger Scruton, faz a relação da Beleza com o Amor Platônico. E não pensem nessa concepção vulgar que essa expressão hoje tem, como o amor não correspondido e fantasioso. Mas da concepção do mais puro e verdadeiro Amor que Platão deixou neste curto, mas profundo diálogo. Entender a Beleza e o Amor são de extremas importâncias nossas vidas. Agora, mais que entender, se faz necessário viver profundamente o que são esses dois grandes alimentos de nossas almas.

Beleza

E lá se vai… Ah tempo voraz
Ainda a sentir o perfume doce
Sorrateiro vento, que a trouxe
E nas lembranças a vida se faz.

Fica o vazio, após haver cheio.
Oh, inexorável lei da natureza!
Ao arrancar a flor por sua realeza,
em vã tentativa, me enleio.

Senhora misteriosa da imensidão!
Limites não abarcam sua bondade,
Vão além do infinito das estrelas.

Abro os olhos, anseio a paixão
O calor de viver, a humanidade
A beleza é não poder contê-las.

Rio da Sabedoria

Copyright © Carlos Eduardo

Houve um tempo, nos conta uma antiga tradição,
Que entre o céu e os homens existia uma relação.
O homem dominou com força tudo de externo,
Mas esqueceu de ouvir e cultivar o seu interno.
Acima dos Deuses, proclamou seu individualismo,
Passando a venerar e lançar louvores ao egoísmo.

Assim o elo com o divino foi rompido e profanado
E o homem, na escuridão, ficou desamparado.
Pois o Sol retirou-se em seu último pouso
E as águias levantaram suas asas e alçaram vôo.
O vento soprou forte e lamparinas foram apagadas.
A Justiça, a Bondade e a Beleza tornaram-se veladas.

Porém, alguns se voltaram para o céu bravamente
E suplicaram para que o Sol voltasse a nascer novamente.
Os céus escutaram o apelo e, com nobre piedade,
Verteram lágrimas para limpar a escuridão da humanidade.

O rio da sabedoria que havia secado voltou a jorrar
E alguns, que o viram nascer, de suas águas foram tomar.
As áridas terras da ignorância foram inundadas
E as sementes da Primavera, novamente cultivadas.
Nasceram as flores exalando o perfume da candura
Que só pode ser sentido pelos poros de uma alma pura.

E para que esse elo não fosse mais uma vez perdido,
Homens viveram como um exemplo a ser seguido.
E, por isso, Leonardo da Vinci a Beleza plasmou.
E, por isso, Shakespeare ao Amor declamou.
E, por isso, Beethoven expressou o som da divindade.
E, por isso, Platão, com maestria, revelou a Verdade.
E por isso, Giordano, bravamente, nas masmorras padeceu.
E por isso, Sócrates, em nome da Filosofia, a cicuta bebeu.

Pois, apesar de nossa pequenez, heróis podemos ser.
É sonhar em ser grande, é ter um Ideal pelo qual viver.
Pois, por mais difícil e dura que a vida pareça,
Devemos ter a certeza de que, logo que amanheça,
O sol surgirá forte e brilhante após a tormenta.
O rio da sabedoria jamais seca para a alma sedenta.