Arquivo da categoria: Keats

Ode ao Rouxinol

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Endymion

esperancaO que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.

John Keats (poeta inglês – 1795-I82l)

Endymion (trecho)

La Belle Dame Sans Merci

La Belle Dame Sans Merci, de Sir Frank Dicksee

Ah! que pode afligir-te, infortunado,
Que assim vagueias pálido e sozinho?
O junco à beira-lago já secou;
Não canta um passarinho.

Ah! que pode afligir-te, infortunado,
De feição macilenta e assim desfeita?
O celeiro do esquilo está repleto,
E finda está a colheita.

Um lírio nessa testa eu bem o vejo,
De suor de febre e de aflição molhado;
E uma rosa que murcha em tua face
Logo terá secado.

Uma dama nos prados encontrei,
Todo-formosa, filha de uma fada:
A cabeleira longa, os pés ligeiros,
A vista descuidada.

Tomei-a em meu corcel de passo lento,
E o dia inteiro nada mais vi, não;
Pois pendida de lado ela cantava
De fada uma canção.

Eu fiz-lhe uma grinalda para a fronte,
E pulseiras e um cinto redolente;
Ela me olhou com ar de quem amasse,
Gemendo suavemente.

Procurou para mim raízes doces,
Orvalho de maná e mel do mato;
E numa língua estranha murmurou:
“Eu amo-te de fato”.

Levou-me para a sua gruta mágica,
E com suspiros fundos me fitou;
Fechei-lhe os olhos tristes, descuidados,
– Meu beijo a acalentou.

Na gruta, sobre o musgo, nós dormimos,
E ali sonhei – que triste a minha sina!-
O último sonho que haja eu sonhado
No frio da colina.

Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes,
Todos, de morte pálidos, eu vi,
E me diziam: – “Pôs-te em cativeiro
La belle Dame sans merci”.

Com o negro aviso, seus famintos lábios
Vi escancarar-se à sombra vespertina;
E despertando me encontrei aqui,
No frio da colina.

E este é o motivo pelo qual eu me acho
Aqui, vagando pálido e sozinho,
Malgrado, seco o junco à beira-lago,
Não cante um passarinho.

John Keats (1795-1821)