Arquivo da categoria: Musa

O rio que trafego…

rio
Oh minha doce amada,
Leve-me já deste mundo!
Que esta vida armagurada
É como um poço sem fundo.

Podem pisotear meu coração
Mas nunca hão de extirpar
O Amor que ponho em sua mão.
O mal não o pode alcançar.

E se choro, não lamento.
E se dói, não me entrego.
E se traem, não arrebento.

Que o rio em que trafego
Nasce da mais nobre pureza
E desagua na sua Beleza.

Anúncios

Minha senhora

“Há medo em voar, a cantar e a sentir como você, porque tudo isso equivaleria a viver com a alma limpa, aberta e desnuda. Por isso, hoje desnudam-se os corpos e combrem-se-lhes as almas de sujos farrapos… Por isso, a poesia está morta (…) Porém, eu a tenho visto e sei que existe…” Délia Steiberg Gúzman

Erato e sua lira

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

William Shakespeare

Abandono

La Abandonada, de Botticelli

Por que me abandonaste neste antro?
E o tempo entre cigarros e letras
Arrasta-me qual uma nuvem preta
A espera de desaguar em pranto.

E em vão fico a entoar
Seu nome por todos os lugares.
Mas em nenhum dos olhares
Encontro onde você pode estar.

Não sou digno de tê-la ao meu lado?
Porque, pois, me deu coração?
Arrancai-o de meu peito então!
Que não suporto viver amargurado.

Que não há vida (me deixe partir)
Se o seu amor eu não puder sentir.

Poesia

Que és poesia? –
Dizes enquanto cravas em minha
pupila tua pupila azul.
Que és poesia? E tu me perguntas?
Poesia és tu!

Gustavo Adolfo Bécquer

Apelo

Copyright © Carlos Eduardo

Palavra, vinde a mim
Rude poeta que anseia, enfim,
Ser fidedigno de te exaltar,
Aspirante de a ti levantar

Um altar para os olhos mortais
E sobre ele vos elevais.
De mim não é nem a tinta
Que nas palavras se extinta.

A querer nada estou fadado
E nem vos peço salvaguardo.
Com minha dor não vos importais,
Fazei dela escada aos mortais

Para verem em ti a certeza
De que há algo mais além da aspereza.
Para mirarem o céu e verem sua expressão.
Mas darei somente aos que no coração

Não há sinal da torpe arrogância,
Nem da triste vulgar ignorância.
Ainda, se a mim não vos revelardes
Por leal não me considerardes,

Que a tinta dessa caneta não possa escrever
E que, teus lábios, eu nunca possa ter.

Por que a beleza importa?

A Arte é a expressão da Beleza. Um artista é aquele, então, que não possui apenas a função de exprimir o Belo. É algo mais profundo, é o seu Destino. É um dever, mas não como o peso que esta palavra representa atualmente. É um dever como uma espécie de motor interno, que unindo à sua inclinação natural, o obriga a fazer o que deve fazer. Ele é tocado pela loucura divina. Uma obra interessante que trata desse assunto é Fedro de Platão:

“(…) os maiores benefícios nos são transmitidos através da loucura, quando são enviados como uma dádiva dos deuses. (…) E a propósito vale a pena registrar o fato de que homens do passado que conceberam nossa linguagem não pensavam que a loucura fosse criminosa ou ignominiosa; se assim fosse, não teriam associado a própria palavra mania (mania [loucura]) à mais nobre das artes, a que prediz o futuro, chamando-a de mânica.
(…)

Quanto àquele que é corretamente possuído pela loucura, é encontrado um alívio dos males do presente. Um terceiro tipo de posse provém das Musas, o qual se apodera de uma alma terna e inviolável, desperta-a para um frenesi dionisíaco de cantos e outras poesias que glorifica os feitos do passado, e através destes educa as novas gerações. Aquele, todavia, que, sem possuir a loucura, alcança as portas das Musas, na expectativa de ser um bom poeta adquirindo conhecimento da arte, frustra-se, a poesia do homem de senso sendo totalmente eclipsada pela do louco.
(…) A conclusão é que não devemos alimentar medo no que se refere a esse aspecto e que ninguém não nos perturbe nem assuste declarando que o amigo que está em perfeito juízo deve ser preferido ao que experimenta um frenesi.”

Essa obra atemporal trata do Amor. Mas que relação tem o Amor com a Arte? Citando, parte do discurso de Sócrates, em Fedro:

“Aquele, entretanto, que foi recentemente iniciado, alguém que contemplou muita de tais realidades, ao ver um rosto de semelhança divina ou uma forma corpórea que constitui uma boa imagem da beleza, principia por estremecer, algo como o velho pavor que sentia antes dele se apoderando; então, a medida que contempla, passa a reverenciar aquele que é belo como um deus, e se não recear ser julgado completamente louco, oferece sacrifícios ao favorito como se o fizesse a um ídolo ou a um deus. E enquanto o contempleta, uma reação ao seu [anterior] estremecimento dele se apossa, acompanhada de suor e calor incomum, pois a medida que o fluxo de beleza o penetra através de seus olhos, ele é aquecido (…)
Ora, a alma inteira durante esse processo pulsa e palpita.”

E o que é a Beleza e porque ela tem um papel tão importante em nossas vidas? Esta pergunta é magistralmente respondida pelo historiador Roger Scruton, no melhor documentário que já tive oportunidade de assistir: Why Beauty Matters?

Nele, Roger Scruton, faz a relação da Beleza com o Amor Platônico. E não pensem nessa concepção vulgar que essa expressão hoje tem, como o amor não correspondido e fantasioso. Mas da concepção do mais puro e verdadeiro Amor que Platão deixou neste curto, mas profundo diálogo. Entender a Beleza e o Amor são de extremas importâncias nossas vidas. Agora, mais que entender, se faz necessário viver profundamente o que são esses dois grandes alimentos de nossas almas.

Beleza

E lá se vai… Ah tempo voraz
Ainda a sentir o perfume doce
Sorrateiro vento, que a trouxe
E nas lembranças a vida se faz.

Fica o vazio, após haver cheio.
Oh, inexorável lei da natureza!
Ao arrancar a flor por sua realeza,
em vã tentativa, me enleio.

Senhora misteriosa da imensidão!
Limites não abarcam sua bondade,
Vão além do infinito das estrelas.

Abro os olhos, anseio a paixão
O calor de viver, a humanidade
A beleza é não poder contê-las.

Importância

Copyright © Carlos Eduardo

O que importa o que escrevo?
Não me importa viver nem ao menos morrer,
Pois não escrevo para lerem-me
Nem para eu mesma me compreender.
Escrevo só para ti minha amada.
Se minha poesia é bela ou ritmada?
Se há sentido em viver ou saber?
Este amor já é tudo para mim.
Quando sozinha à noite tu me tomas,
Ah! Nada mais importa… Meu corpo, meus pés
Minhas mãos ou braços…
Não me importa a dor ou a alegria,
Sinto a plenitude, sinto só a ti!
É para ti que escrevo minha Deusa
E nem precisaria colocar em palavras
Porque tu sabes o que há em meu peito.
Nunca me deixes, ainda que eu seja indigna
De tão majestade e altura que tu tens.
És o sentido de eu existir.
Nem respirar preciso, meu ar és tu!
Poesia é tu! Tu és a rima perfeita,
Tu és os versos que nunca hei de escrever.
Porque nunca existirá quem colocará
Em versos uma ínfima parte de ti.
Que eles compreendam-me não me importa,
Se aplaudem ou zombem do que escrevo.
Nada disso tem mais valor
Que o êxtase que teu amor me dá.
Eu vejo-a minha Senhora.
Tu és para mim o Universo, minha santa.
Só escrevo porque tu mandas
E sou seu fiel servidor.
É para que não me abandones caso desobedeça
O que tu pedes que eu seja.
Poeta, homem, mulher, sou o que tu quiseres.
Não há o que peças que não o faças.
Só uma coisa eu suplico
Não me peças que deixe de amar-te.
Porque isso não o posso fazer,
Pois assim deixaria de existir,
O seu amor é a substância do que sou feita.
Não vim aqui enumerar suas virtudes
Nem tentar decifrar quem tu és
Porque não me importo em dizê-lo
Eu simplesmente o sei.
Sinto em cada parte que me compõe.
Saber, entender? Isto não vale de nada!
Não trocaria todo o saber por isto,
Por este amor que me toma
E prende-me por completa.
Isto é que é o Amor!
E também não vou defini-lo.
Vou simplesmente senti-lo
Até quando permitas que assim o faça.
Todo o Universo não me importa,
Só me importa uma única coisa:
Tê-la sempre e nunca abandoná-la.
Isso é infinito, porque o tempo
É estreito para o meu amor.
Em que dimensão tu habitas?
Que quando tu me visitas sinto-me no céu.
Sinto em um único instante tudo!
E não me pergunto quando, como, de onde…
Não me importa o tempo ou o espaço
Nada existe, só tu existes.
Tu és a única, tu és a mais pura,
Tu és a Verdade, a Beleza.
Tudo ademais é falso.
Quando vejo a ti, sim, a vejo,
Tu és a perfeição, tu és completa.
E ser teu amante é só o que sou.
O que mais me importa ser senão isso?

Jóia

Copyright © Carlos Eduardo


Se tu o teu amor me renegar,
Não haverá mais sentido em viver.
Como posso continuar a respirar,
Se teu coração eu não pude ter?

Ah, minha doce amada,
Deixa-me ao menos te venerar
Para não ter a vida acabada
E para sempre no inferno vagar.

Pois meu céu é a sua face,
És a luz do Sol que me transpassa
E a noite que a mim devassa
Quando com tuas estrelas me apetece.

Não tenho riquezas pra te oferecer.
Tu és a maior jóia que posso ter.

Palavras

Copyright © Carlos Eduardo

Minhas palavras podem não ser rebuscadas,
Longe de alcançarem sua Beleza,
São sombra da sombra de sua grandeza.

Mas uma coisa eu posso garantir:
Dou-lhes a minha dignidade,
Pois guardam todo o meu sentir
E entrego-me lhes com toda a verdade.

Porque os poetas têm a coragem
De todas as feridas mostrarem
Por amor à humanidade.

E, por tamanha generosidade,
São presenteados por sua benevolência
Para aliviar, de serem poetas, a pena.

Viver

Copyright © João Paulo Canário

Viver, como direis não?
Viver, apesar de todos os medos.
Cantar, apesar de todos os ruídos.
Amar, apesar de todos os tropeços.
Ser, apesar de todos os conflitos.

Há mais além do pesar de viver,
Há o cantar de uma poesia,
Há sempre uma flor a nascer.

Supliquei que me mostrasses o porquê
Que, a mim, me trouxe à vida.
Porque há tanta dor se tu
Poderias extinguir com um só olhar?
Da sua Beleza, os pobres mortais tem esquecido.
Vivem na sombra da sombra de tudo o que há.

Se o que há não é o que é,
Então porque hei de viver assim?

E em um sonho tu me vieste,
Sentou-se ao meu lado
E me contou que a vida é simples.
Beijou-me a face e falou que eu continuasse,
Não por meu transitório querer,
Mas porque é meu dever.