Arquivo da categoria: Poemas Próprios

Tirei os sapatos
Queria sentir a grama tocar meus pés
Estava frio
E minha pele tornou-se fria
Mas meu peito era quente
Fechei os olhos
E não pensei em nada
Só aquilo bastava
O prazer está na percepção do simples
Na duração de um piscar
Não me peça para pôr os calçados
É assim que quero andar
Assim que vim ao mundo
Assim que quero ficar

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Torturas ao amanhecer
Tonturas ao anoitecer
Sobre ser um pouco mais
Não sei se fico ainda
Mas não volto jamais
Cada sono me desperta
Eu ouço música para não ouvir seu recado
Tropeço sobre tropeço
Caio às vezes, mas é sempre mais longe
E levanto que é de pé que se dança

Se há males que vem pro bem
Que essas dores tratem de deixar forte
Coração mole tanto bate até que endura
Toc toc, ainda há tempo?
Silêncio, ouço pisadas mansas
É só o vento passando nas frestas
Fecha os olhos e adormece
Que tudo passa
E que nada é infinito
Ainda bem

Antítese

Sua prisão nos liberta
Revela nossas fraquezas, tornando-nos mais fortes
Promove guerras e encontra a paz
Causa medo e nos dá esperança
E na separação é que o nos une
Motivo do pranto e do sorrir
Perfura quando humilhado e faz flutuar quando nobre
Tem fim e é inifinito
O que mais faz  falta e o que mais transborda
O Amor é antítese na sua síntese

Histórias (nunca) esquecidas

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Já se passou muito tempo. Nossa história ficou esquecida em algum livro de romance perdido na prateleira de uma casa abandonada. Já não somos mais os mesmos que trocaram olhares inocentes durante o soar de um violão numa noite de domingo. Só não sabíamos que aquela noite iria fazer que nunca mais fôssemos os mesmos. Estava escrito o fim de nossa história antes que a pena tocasse o papel, mas a tinta parece não ser suficiente para extinguir o sentimento que surgiu. Foi uma autêntica história de amor, enquadraria-a no gênero tragédia, como as grandes histórias tem que ser. Sinto-me outra, entretanto acredito que  habitamos uma dimensão paralela onde repetidamente vivemos aqueles dias, os dias mais felizes, intensos e profundos que já vivi. Não guardo mágoa, rancor, raiva, nenhum sentimento capaz de profanar tudo o que vivemos. E se o final não foi feliz, rasgo essa folha e fico a ler esse livro de páginas amareladas, esperando que um dia as palavras se apaguem. E se eu vir a ir embora desse mundo antes disso acontecer, leia-as para mim enquanto olhar as estrelas, que estarei ouvindo a sua voz…

Vai ver

Quanto teu coração encontra o meu,
Vai ver que sua música tem a mesma melodia.
Quando teu lábio encosta no meu,
Vai ver que sua dança tem a mesma sincronia.
Vai ver que o tempo só passa para chegar
A hora de novo penetrar em seu olhar.
Vai ver que nosso encontro é como a maré,
Na eterna busca da margem sem cessar.
Vai ver que o teu corpo é meu cais,
Sou absorvida mas que sempre sobra mais.
Vai ver que quanto mais me entrego a ti
Mais me expando para você mergulhar em mim.

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Nada faz mais barulho que o silêncio

De olhares que gritam a se cruzarem.

Pontuação

É muita interrogação

depois da exclamação

que viram ponto final

ao invés de reticências…

Passarinho

 

passaro

Sou um pássaro que canta
sem ninguém a ouvir
O meu canto é sincero,
só aos ecos a servir.

Sobrevoo o céu infinito,
Pairo sobre um poço raso,
Que curioso ao longe fito,
De pequenez tenho descaso.

Antes ser livre que afundar
E minhas asas encharcadas
Me impedirem de voar,
Num lamaçal afundadas.

Existe quem conheça a canção,
Que seja como eu passarinho:
Pulse no ritmo do meu coração!
E nunca mais estar sozinho…

Cinzas

cinzas

Esse é motivo do fim do meu canto:

Coração vazio não preenche papel.

Esbarrando meu corpo em mãos frias,

Enchendo copos em noites perdidas,

Contando sobre como foi meu dia

Quando queria era falar de poesia,

Encontrar o que arranque essa paz

Que esconde meu impulso audaz.

É um insulto a minha alma a calma

Que de medo demais a espalma.

Hora de tomar o isqueiro na mão,

Parar inflamar um pedaço de mim.

Sopro as cinzas e surge enfim

Uma chama nesse apagado coração.