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Passarinho

 

passaro

Sou um pássaro que canta
sem ninguém a ouvir
O meu canto é sincero,
só aos ecos a servir.

Sobrevoo o céu infinito,
Pairo sobre um poço raso,
Que curioso ao longe fito,
De pequenez tenho descaso.

Antes ser livre que afundar
E minhas asas encharcadas
Me impedirem de voar,
Num lamaçal afundadas.

Existe quem conheça a canção,
Que seja como eu passarinho:
Pulse no ritmo do meu coração!
E nunca mais estar sozinho…

Ainda sou eu

Eu me sinto anestesiada
pois não quero mais sentir
nem buscar as respostas
para as perguntas que esqueci.

Tenha cuidado com o deseja
que a vida pode ser peleja…

Mas não pense que me tornei fria,
sou um turbilhao de sentimentos.
Só cansei dessa quinquilharia,
vivo então em meus sonhos

E assim choro e contemplo
e rasga o amor o meu peito
na solidão dos meus olhos,
de lágrimas que não posso conter.

O Azar

Com peso tal, não me ajeito;
Dá-me, Sísifo, vigor!
Embora eu tenha valor,
A Arte é larga e o Tempo Estreito.

Longe dos mortos lembrados,
A um obscuro cemitério,
Minh’alma , tambor funéreo,
Vai rufar trechos magoados.

— Há muitas jóias ocultas
Na terra fria, sepulturas
Onde não chega o alvião;

Muita flor exala a medo
Seus perfumes no degredo
Da profunda solidão

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”
Tradução de Delfim Guimarães

Nostalgia

fernanda-de-castro-silencio-nostalgia

Carrego tropeços e vidraças quebradas,
Quero companhia que possa me salvar,
Mas da solidão não consigo escapar
Em noites que nunca serão encontradas.
Pergunte-me se eu reclamo por ser feliz.
O que é a felicidade quando mais tarde
A tristeza deixa o gosto amargo que arde
Nas lembranças que a minha boca não diz.

Solidão I


Descobri uma amiga desconhecida,
Em minhas entranhas escondida.
Eu, vil, a supus minha inimiga
E a quis afastar de minha vida.

Não enxergava que a sua amizade,
Com pura e real lealdade,
Oferecida aos autênticos artistas
Faz-lhes honrados pela sua visita.

Através dela, encontro a mim mesma,
Permite-me contemplar a Beleza
E mergulhar em mim e fazer do meu tormento
A semente que dá vida a um monumento.

E me faz capaz de descobrir
O que mais de Belo pode existir.
Estende-me a mão e faz-me elevar
Ao que é meu verdadeiro lugar.

Pobre sou, se não aceito com nobreza
Sua companhia, digna da realeza.
Minha querida e amada solidão
Que ninguém a tire do meu coração.

Solidão II

Copyright © Carlos Eduardo

Tu nunca me abandonas.
És para mim uma matrona
Que me revela o mistério.
Faz de mim o teu império!

Oh! Ensinaste-me a contemplar a vida,
A perceber a verdade escondida.
Como pude não ver o teu poder
Encerrado por ti em meu ser?

Rogo, não me abandone jamais.
Dor real sentirei se tu te vais!
A ilusão de que sem ti é felicidade
É daquele que não vê com claridade.

Para mim agora tudo está tão claro!
Pois me perdendo, enfim me acho.
E por desejo de uma indigna companhia
Por tão pouco a ti perdido teria.

Ó solidão, tu me fazes ver quem sou
E somente a ti que entrego o meu Amor.