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Cântico VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

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O Tempo Seca o Amor

amor-perfeitoO tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Cecília Meireles, in ‘Retrato Natural’

Agora


Eu vivo cada dia de uma vez
Entre sim e não, nunca talvez.
Porque o instante é único.
Isso eu levo a sério, de modo lúdico.

De que vale perder-se em medos
Escondendo-se em segredos,
Enclausurando-se em uma prisão,
Para que lhe tenham uma boa visão?

Minha liberdade estar em ser eu,
Carrego em mim o que aconteceu
Mas sem o peso do pesar
De alguma culpa na mala levar.

O ontem passou, o futuro não sei, é o agora
Que pede que eu seja, sem demora.

Importância

Copyright © Carlos Eduardo

O que importa o que escrevo?
Não me importa viver nem ao menos morrer,
Pois não escrevo para lerem-me
Nem para eu mesma me compreender.
Escrevo só para ti minha amada.
Se minha poesia é bela ou ritmada?
Se há sentido em viver ou saber?
Este amor já é tudo para mim.
Quando sozinha à noite tu me tomas,
Ah! Nada mais importa… Meu corpo, meus pés
Minhas mãos ou braços…
Não me importa a dor ou a alegria,
Sinto a plenitude, sinto só a ti!
É para ti que escrevo minha Deusa
E nem precisaria colocar em palavras
Porque tu sabes o que há em meu peito.
Nunca me deixes, ainda que eu seja indigna
De tão majestade e altura que tu tens.
És o sentido de eu existir.
Nem respirar preciso, meu ar és tu!
Poesia é tu! Tu és a rima perfeita,
Tu és os versos que nunca hei de escrever.
Porque nunca existirá quem colocará
Em versos uma ínfima parte de ti.
Que eles compreendam-me não me importa,
Se aplaudem ou zombem do que escrevo.
Nada disso tem mais valor
Que o êxtase que teu amor me dá.
Eu vejo-a minha Senhora.
Tu és para mim o Universo, minha santa.
Só escrevo porque tu mandas
E sou seu fiel servidor.
É para que não me abandones caso desobedeça
O que tu pedes que eu seja.
Poeta, homem, mulher, sou o que tu quiseres.
Não há o que peças que não o faças.
Só uma coisa eu suplico
Não me peças que deixe de amar-te.
Porque isso não o posso fazer,
Pois assim deixaria de existir,
O seu amor é a substância do que sou feita.
Não vim aqui enumerar suas virtudes
Nem tentar decifrar quem tu és
Porque não me importo em dizê-lo
Eu simplesmente o sei.
Sinto em cada parte que me compõe.
Saber, entender? Isto não vale de nada!
Não trocaria todo o saber por isto,
Por este amor que me toma
E prende-me por completa.
Isto é que é o Amor!
E também não vou defini-lo.
Vou simplesmente senti-lo
Até quando permitas que assim o faça.
Todo o Universo não me importa,
Só me importa uma única coisa:
Tê-la sempre e nunca abandoná-la.
Isso é infinito, porque o tempo
É estreito para o meu amor.
Em que dimensão tu habitas?
Que quando tu me visitas sinto-me no céu.
Sinto em um único instante tudo!
E não me pergunto quando, como, de onde…
Não me importa o tempo ou o espaço
Nada existe, só tu existes.
Tu és a única, tu és a mais pura,
Tu és a Verdade, a Beleza.
Tudo ademais é falso.
Quando vejo a ti, sim, a vejo,
Tu és a perfeição, tu és completa.
E ser teu amante é só o que sou.
O que mais me importa ser senão isso?

Estação

Albino Luiz Gineste (Curitiba, PR)

A vida é uma despedida
Onde cada instante é uma partida.
Leva um pedaço do que fomos
E do qual não somos donos.

O sol, que com sua luz nos irradia,
Não deixa de partir um sequer dia.
E o vento, que nos toca a face,
Ainda mais fugaz então parte.

Porque o futuro jamais espera
E o frágil presente quisera
Poder guardar o que o passado levou.

Mas é tarde, o trem passou.
Jogue fora o bilhete que tem na mão.
Ele nunca mais voltará a esta estação.