Tirei os sapatos
Queria sentir a grama tocar meus pés
Estava frio
E minha pele tornou-se fria
Mas meu peito era quente
Fechei os olhos
E não pensei em nada
Só aquilo bastava
O prazer está na percepção do simples
Na duração de um piscar
Não me peça para pôr os calçados
É assim que quero andar
Assim que vim ao mundo
Assim que quero ficar

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Torturas ao amanhecer
Tonturas ao anoitecer
Sobre ser um pouco mais
Não sei se fico ainda
Mas não volto jamais
Cada sono me desperta
Eu ouço música para não ouvir seu recado
Tropeço sobre tropeço
Caio às vezes, mas é sempre mais longe
E levanto que é de pé que se dança

Se há males que vem pro bem
Que essas dores tratem de deixar forte
Coração mole tanto bate até que endura
Toc toc, ainda há tempo?
Silêncio, ouço pisadas mansas
É só o vento passando nas frestas
Fecha os olhos e adormece
Que tudo passa
E que nada é infinito
Ainda bem

Antítese

Sua prisão nos liberta
Revela nossas fraquezas, tornando-nos mais fortes
Promove guerras e encontra a paz
Causa medo e nos dá esperança
E na separação é que o nos une
Motivo do pranto e do sorrir
Perfura quando humilhado e faz flutuar quando nobre
Tem fim e é inifinito
O que mais faz  falta e o que mais transborda
O Amor é antítese na sua síntese

“Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
na pracinha junto à igreja.
Ou é úlcera ou é amor.”

Cântico VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

Histórias (nunca) esquecidas

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Já se passou muito tempo. Nossa história ficou esquecida em algum livro de romance perdido na prateleira de uma casa abandonada. Já não somos mais os mesmos que trocaram olhares inocentes durante o soar de um violão numa noite de domingo. Só não sabíamos que aquela noite iria fazer que nunca mais fôssemos os mesmos. Estava escrito o fim de nossa história antes que a pena tocasse o papel, mas a tinta parece não ser suficiente para extinguir o sentimento que surgiu. Foi uma autêntica história de amor, enquadraria-a no gênero tragédia, como as grandes histórias tem que ser. Sinto-me outra, entretanto acredito que  habitamos uma dimensão paralela onde repetidamente vivemos aqueles dias, os dias mais felizes, intensos e profundos que já vivi. Não guardo mágoa, rancor, raiva, nenhum sentimento capaz de profanar tudo o que vivemos. E se o final não foi feliz, rasgo essa folha e fico a ler esse livro de páginas amareladas, esperando que um dia as palavras se apaguem. E se eu vir a ir embora desse mundo antes disso acontecer, leia-as para mim enquanto olhar as estrelas, que estarei ouvindo a sua voz…

Contentamento

“Dizes contentar-te com pouco; é essa, na realidade, a suprema sabedoria mas eu fui sempre a grande revoltada e a grande ambiciosa que só quer a felicidade quando ela seja como um turbilhão que dê a vertigem e que deslumbre!” Florbela Espanca

Fragmento 70

Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente.

Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo.
É um humanitarismo directo, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a todos através de uma compaixão de único consciente, os pobres diabos homens, o pobre diabo humanidade. O que está tudo isto a fazer aqui?

Todos os movimentos e intenções da vida, desde a simples vida dos pulmões até à construção de cidades e a fronteiração de impérios, considero-os como uma sonolência, coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no intervalo entre uma realidade e outra realidade, entre um dia e outro dia do Absoluto. E, como alguém abstractamente materno, debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes, tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

O pássaro azul

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há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

Charles Bukowski