Arquivo da categoria: Vida

Midsummer’s night’s dream

Quem o encanto dirá destas noites de estio?
Corre de estrela a estrela um leve calefrio,
Há queixas doces no ar… Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado…
Que esquisita saudade!  – Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta, que tocava o céu… Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!
Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignota e longínqua paragem,
Astros, não me levais nessa eterna viagem?
Ah! quem pode saber de que outras vida veio?…
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo… e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,
– O cadáver de alguém de quem carrego a vida…

Olavo Bilac

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A Espantosa Realidade das Cousas

contemplar
A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Endymion

esperancaO que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.

John Keats (poeta inglês – 1795-I82l)

Endymion (trecho)

Não sei

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Não sei… se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura…Enquanto durar.

Cora Coralina

O rio que trafego…

rio
Oh minha doce amada,
Leve-me já deste mundo!
Que esta vida armagurada
É como um poço sem fundo.

Podem pisotear meu coração
Mas nunca hão de extirpar
O Amor que ponho em sua mão.
O mal não o pode alcançar.

E se choro, não lamento.
E se dói, não me entrego.
E se traem, não arrebento.

Que o rio em que trafego
Nasce da mais nobre pureza
E desagua na sua Beleza.

Querer

esperanca
Não há de existir suficiente calor
Capaz de retirar o frio de minha alma.
Meus sonhos estão abandonados,
Esquecidos no fundo do nada,
Em alguma estação extraviados,
Ficando a mim somente este estupor.

Cansei de tal grande infortúnio.
Minhas pernas não suportam mais
Vou jogar fora o peso de minhas costas
Que a minha alma esmaga, voraz.
Estou farta, farta de procurar respostas
Neste abismo que é o mundo.

Pedem-me tudo que nada me traz.
Quero do silêncio, a serenidade.
Quero de uma flor, a contemplação.
Quero de um sorriso, a suavidade.
Quero de um abraço, a consolação.
Quero ser apenas eu, nada mais.

E meus olhos nos demais olhos poder olhar
Dançar, sonhar, cantar, sorrir, chorar,
Amar? Amar! Amar… Amar.

Mergulhar no mais profundo de mim
Até que falte ar e, na eminência de morrer,
Respirar o ar da vida, trazendo, enfim,
O que me faz o muito, o tudo, querer!

XXI – Se Eu Pudesse

chuva2Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …

Fernando Pessoa

Sonhar


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar constantemente o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

Helena Kolody

Man of La Mancha

Van Gogh: Don Quixote de la Mancha


– Como é que aos poetas fascinam lhes tanto os loucos?
– Temos muito em comum.
– Ambos dão as costas à vida?
– Ambos escolhemos a vida!
– Um homem deve entender a vida como é.
– A vida como é… Vivi mais de 40 anos e vi… a vida como é.
Dor… miséria, incrível crueldade. Ouvi todas as vozes da mais nobre criatura do Deus aos gemidos da sociedade suja das ruas. Fui soldado e escravo. Vi a meus camaradas caírem em batalha…
…ou morrerem mais devagar sob um chicote africano. Sustentei-os até o último momento.
Homens que viram a vida como é!
Ainda assim morreram desesperados. Nem glória nem últimas valentes palavras!
Só seus olhos, plenos de confusão, perguntando por que…
Não acredito que perguntassem por que morriam… A não ser por que tinham vivido.
Se a vida parece uma loucura em si, quem dita o que é loucura?
Talvez ser muito prático seja a loucura. Renunciar a sonhos seja loucura talvez.
Procurar um tesouro onde só há lixo…
Muita prudência poderia ser a loucura!
E a loucura maior de todas… é ver a vida como é e não como deveria ser!”

(Diálogo com Cervantes no filme Man of La Mancha)

Faça…


“O que quer que você faça na sua vida será insignificante, mas é muito importante que você faça, porque ninguém mais o fará! ” Mahatma Gandhi